segunda-feira, março 24, 2014

Efeito Marquinho


Em meados dos anos de 1990, lembro-me que um dos sonhos comuns do brasileiro de classe média era viver nos Estados Unidos. Esta fixação pelos norte-americanos – já criticada por alguns setores da sociedade naquela época, com o slogan Fora FMI – era expressa nos desejos de alguns amigos de debutar com viagem à Disney e de consumir produtos da terra de Tio Sam, após um reaquecimento da economia brasileira.

À época, a sátira à adoração aos norte-americanos pelos brasileiros era tema de um dos quadros do programa de humor da rádio 89FM de São Paulo, “Os sobrinhos do Ataíde”, criado pelos jornalistas Paulo Bonfá, Marco Bianchi e Felipe Xavier. Nele, o personagem Marquinho tinha como bordão a frase “Os americanos são muuuuito melhores” ao se referir a qualquer coisa vinda da terra onde está Hollywood.


Passados vinte anos, os brasileiros mantêm a predileção pelos Estados Unidos. Enquanto o Ministério das Relações Exteriores estima 1.280.000 brasileiros residentes em todo os Estados Unidos, um estudo revelou o país de Obama como primeira opção de mudança para o exterior. A pesquisa foi feita pelo Instituto Ibope/Conecta, para a rádio CBN, e divulgada em dezembro de 2013.


Manifestante (?) no Brasil no ano passado. Uma imagem vale mais que mil words...
 


EUA foi citado como preferência de um a cada cinco brasileiros (19%), seguido do Canadá (17%) e Inglaterra (16%). Na lista dos dez mais, o “top ten”, em inglês, figura ainda Alemanha, Austrália, Itália, França, Espanha, Portugal e China, esta última, com 1% das intenções. 

Nenhum deles faz fronteira com o Brasil ou está na América do Sul, embora tenhamos no continente países com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais elevado que o nosso.


É fato que os Estados Unidos e Canadá estão muito à frente do Brasil no IDH, índice que mescla dados de riqueza, alfabetização, educação, esperança de vida, natalidade e outros para verificar o bem-estar da população. 

Na América do Sul, Chile, Uruguai, Argentina têm IDHs superiores ao brasileiro. Na América Central, Cuba tem desempenho melhor que a média brasileira. Oito cidades uruguaias estão na liderança do IDH entre as 13 primeiras localidades latino-americanas. Em Montevidéu, por exemplo, o IDH era de 0,88, em 2007. Em São Paulo e Rio de Janeiro, no mesmo ano, o índice era de 0,833 e 0,832, respectivamente.


 


Podia ser Europa. Mas é América Latina. Chile, o país com maior IDH do continente.

Talvez o fato de olharmos como “modelos de civilização” apenas o outro lado do oceano ou a América do Norte explique a reação de repulsa de algumas pessoas à vinda dos latino-americanos para estudarem em Foz do Iguaçu. Ou talvez seja só uma xenofobia acéfala de quem vive de síndrome de Marquinho e só enxerga como “muitos melhores” os nascidos em berço norte-americano.

Se tivéssemos aqui uma universidade federal para a integração Brasil-Estados Unidos ou Brasil-Suécia, patrocinada da mesma forma pelo governo e fundada pelo mesmo partido (o PT), a gritaria contrária seria a mesma? Acho que todos nós, favoráveis ao projeto da Unila, como eu sou, ou os contrários à instituição, sabemos a resposta. E não precisa muito: basta usar um pouco da dedução, já que informação não é a base dos críticos do projeto.

segunda-feira, março 17, 2014

Porque as mulheres morrem por serem mulheres

Efeito colateral da contemporaneidade, a síndrome do "cheio de opinião" alastra-se pelas redes sociais e outras plataformas. Mesmo distante do rigor científico, as observações empíricas lançadas podem ser positivas em diversos aspectos. Hoje, elas servem como via alternativa aos meios de comunicação tradicional, contribuem para a mobilização popular e ajudam-nos a entender melhor a sociedade, inclusive, em seus aspectos negativos. Não é diferente com os blogs, primeiras plataformas de opinião popularizadas pela internet.

No outro polo, o "lado ruim da coisa", a síndrome do "sabe-tudo" pode nos induzir a conclusões rasas e a nos levar a engrossamos a massa de manobra de interesses diversos. Em ano eleitoral isso é ainda mais evidente (basta ficarmos atentos para montagens diversas circulantes no Facebook).

Quem escreve e se expõe publicamente está fadado a ser julgado pelas mais diversas visões de mundo. E, em um ambiente virtual com conteúdo infindável, sinto-me honrada pela atenção dispensada por alguns leitores, mesmo quando há eventuais críticas. Os embates são parte da democracia. Apenas egocêntricos e ditadores não os toleram.



Ironia mostra o preceito do feminismo. Radical é quem não entende.

Na semana passada, defendi em um trecho do texto sobre o assassinato da estudante que Martina Piazza (no dia 2 de fevereiro) fora morta por ser mulher. Infelizmente neste caso, não há argumento capaz de me convencer do contrário. E não se trata de crença ou militância rasa. Com base de formação no campo da Academia, não sou do tipo que constrói axiomas sem embasamento prévio, embora eu, como você, possamos errar em nossas conclusões. Por isso, o esforço para que elas sejam pautadas por minuciosa pesquisa, e não por paixões ou pela "militância" de estar certo, como se estivéssemos participando de um duelo intectualoide.

Embora no Código Penal brasileiro ainda não haja qualificação para o crime de feminicídio, forma de violência contra o gênero resultante na morte da mulher, o assunto é tema de um projeto de lei, de autoria da senadora Ana Rita (PT-ES) em trâmite no Senado. Caso aprovado, será mais uma tipificação para os homicídios no Brasil.

Para ser considerado feminicídio, é preciso haver três circunstâncias, isoladas ou contínuas. São elas: a relação íntima, de afeto ou parentesco, entre vítima e o agressor; a hipótese de violência sexual, antes ou depois da morte; a mutilação ou desfiguração da vítima, também antes ou depois da morte, associado ao emprego de tortura ou qualquer meio degradante.

Para esclarecer: não se trata de misoginia (ódio ao sexo feminino), mas de uma tipificação para crimes contra mulheres e que são cometidos em virtude do gênero.

Se marcar um encontro, convidar o agressor a adentrar um apartamento consigo - numa evidente relação de confiança - e ser morta em um estrangulamento de tamanha brutalidade que levou à quebra do pescoço da vítima, se isso tudo não se encaixar em nenhum dos itens, aí posso reconsiderar meu "axioma" que Martina foi morta por ser mulher.

Até lá, mantenho minha opinião, ainda que possa ser considerada uma a mais nesse oceano de "achismos". Qualificar como feminicídio crimes como este é uma forma de não colocá-los na vala comum dos homicídios, dispor de dados estatísticos mais contudentes sobre a violência contra a mulher e não esconder essa sujeira embaixo dos nossos tapetes.

Ainda que este seja um Trabalho de Sísifo, continuarei empurrando essa pedra morro acima, na esperança de um mundo melhor para nós, mulheres, anônimas ou não.




(Para entender melhor, recomendo a leitura de "Femicídios" e asmortes de mulheres no Brasil, de Wânia Pasinato, "Feminicídio:quando mulheres são mortas por serem mulheres", de MônicaRibeiro e Ribeiro, ambos disponíveis no Google. O Projeto de Lei 292/2013 pode ser acessado neste link http://www.senado.gov.br/atividade/materia/getPDF.asp?t=133307&tp=1 e o Mapa da Violência contra a mulher, neste caminho: http://www.mapadaviolencia.org.br/mapa2012_mulheres.php)

segunda-feira, março 10, 2014

Não há nada para celebrar




 Foto de Lalan Bessoni
 
A poucos dias do Dia Internacional da Mulher, o assassinato no domingo (2) da estudante da Unila, Martina Piazza Conde, de 26 anos, trouxe para o universo do tangível o abuso de milhares de mulheres que sofrem caladas e de forma sistemática uma violência motivada pelo simples fato de serem do sexo feminino.


Na morte da universitária, estão impressas de forma implícita a opressão cotidiana, os casos de abuso sexual e outras formas de agressão impostas por uma sociedade patriarcal. Embora não saibamos o motivo – embora eu não acredite em justificativas para o injustificável – cada atitude machista ajuda a tecer a rede da conivência com os maus tratos às mulheres.


Sim, nós somos dotadas de uma estrutura física mais frágil, mas não é somente por isso que terminamos como vítimas fatais em situações como essa. No balaio das “razões sem razão”, entra também a concepção da mulher servil, ou seja, de toda relação de poder construída historicamente do homem sobre a mulher. 


Esses elementos contribuem para engrossar dados alarmantes. Entre 2009 e 2011, o Paraná teve 1.035 femicídios, segundo números da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Na ponta do lápis, dá quase uma morte por dia. 



Martina: mulher bonita é a que luta!

Nos números deste ano, estará a morte de Martina para nos lembrar que essa lista é composta de pessoas com rostos, endereços, histórias de vida, amigos queridos. No caso da estudante, associe essa imagem a uma pessoa repleta de vitalidade, de vontade de luta por um mundo melhor e sorrisos. 


Se os números ajudam a refletir sobre esse problema, é na imagem dela que podemos vislumbrar tantas outras vítimas. E não são poucas. 


De acordo com o Portal Iguaçu, foram registrados no ano passado 2.453 boletins de ocorrência envolvendo situações de violência contra a mulher no Estado. No ano anterior, foram 11.240 registros. As informações foram passadas ao site pela Coordenadoria das Delegacias da Mulher do Paraná (Codem).


Sete de cada dez mulheres sofrem algum tipo de violência durante a vida, no mundo. E isso apenas por serem mulheres. Em todo o planeta, uma a cada cinco mulheres será estuprada – e eu sou uma das pessoas incluídas nessa estatística. Há mais risco de uma mulher com idade entre 15 a 44 anos sofrer estupro e violência doméstica a ser acometida por um câncer ou vítima de um acidente de carro, conforme divulgou o Banco Mundial. 


Em junho do ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um relatório no qual aponta como problema de saúde global com proporções epidêmicas a violência contra a mulher. Infelizmente, a epidemia está próxima de nós. Resta torcer para não haver outros episódios como o da querida Martina. 
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Disk Denúncia da Delegacia de Homicídios Foz – 0800 643 2977

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

Que a Ucrânia não seja aqui



 Líder neofascista ucraniano.

No início dos anos de 1990, circulou no centro da minha cidade natal, no interior de São Paulo, um abaixo-assinado de apoio aos movimentos separatistas da Iugoslávia. Não me lembro ao certo porque me interessei pelo tema (eu tinha 12 anos de idade), mas lembro-me de ter ouvido atentamente as instruções dos coletores a respeito da importância do apoio dos brasileiros para a emancipação da Eslovênia, Croácia e Bósnia.

Lembro-me de achar legítima a reivindicação e, embora eu possivelmente estivesse mais preocupada em colecionar fotos da boy band do momento, parecia-me justo defender a autonomia dos países e a democracia. Aqui, havia acompanhado a celebração de minha família nos Diretas Já (mesmo sem entender ao certo o que isso representava), mas o voto direto era um conceito debatido com certa frequência pelos meus tios militantes partidários quando eu mal tinha saído das fraldas. Talvez por isso, a reivindicação dos defensores dos Bálcãs pareceu-me automaticamente justa, embora tão, tão distante de nós aqui no Brasil. 

Passados pouco mais de vinte anos, a Ucrânia, país próximo aos Bálcãs, não me parece tão distante quanto a antiga Iugoslávia no passado. E não é a internet a responsável pela redução dessa proximidade entre nós e os ucranianos. 

A despeito do sofrimento humano em qualquer guerra civil, o que me faz compadecer dos conflitos instaurados naquela nação recentemente é o receio de estarmos muito mais próximos dos ucranianos do que poderíamos pressupor. Pode parecer pessimismo – e é, admito – mas alguns pontos da sociedade brasileira são condizentes com o cenário da Ucrânia pré-conflito.

No artigo “Dossiê Ucrânia: os neonazistas a um passo do poder”, publicado originalmente na Agência Rebelión, o jornalista ucraniano Oleg Yasinsky expõe como as coisas foram ficando fora de controle no país tido como um dos mais pacíficos da região. 

Em crise financeira, alguns protestos começaram a ser deflagrados em ambos países. Guardadas as diferenças entre os dois governos – Brasil e Ucrânia têm líderes muito diferentes – nos dois países os protestos sobre reivindicações de forma legítima, por melhores condições, mas acabaram abarcados por grupos de interesses ainda escusos no Brasil. 

O que é nebuloso no país da Copa, não leva máscara na Ucrânia. Por lá, os protestos contra o governo de direita são encabeçados por grupos de ultradireita extremamente mais violentos, segundo Oleg Yasinsky.“Lamentavelmente, essa ultradireita tem agora cada vez mais aceitação social. Isso acontece porque a ultra-direita age contra um governo corrupto, que praticamente perdeu sua legitimidade frente à maioria dos ucranianos, enquanto uma outra direita, agora uma terceira, a da oposição democrática, a dos contos europeus e prantos por Yulia Timoshenko [líder da oposição ucraniana], não teve mérito e capacidade para encabeçar os protestos populares”, disse o jornalista em seu texto.

Por lá, as coisas ficaram fora de controle – e é esse ponto o mais preocupante. Lembro-me que, em junho do ano passado, a gritaria contrária às bandeiras e partidos políticos nas manifestações “dos vinte centavos”. Um tanto perdido, o governo do Brasil agora estuda restringir oficialmente protestos e proibir uso de máscaras. Em São Paulo, não é segredo algum a truculência da PM nas manifestações também cada vez mais violências e nas quais estão presente os “Black Blocs”, nascidos como anarquistas, mas donos de um discurso cada vez mais reacionário.

Outro jornalista ucraniano, Aleksandr Karpets, no artigo de título sugestivo Quando a ‘Revolução’ muda de rumos, nos dá pista da semelhança entre os dois movimentos: “Antes de 19 de janeiro deste ano, os protestos se limitavam a declarações exaltadas, promessas, ameaças, festa e cantos na Praça da Independência de Kiev, que hoje é midiaticamente conhecida como Euro-Maidan (“maidan” é praça em ucraniano). Os “líderes” estavam preocupados com seus futuros ganhos eleitorais. Dava a impressão de que eles tinham medo de tomar decisões e depois ter que arcar com elas. A massa repetia o refrão delirante de uma “revolução apolítica”.”, relata o jornalista.
 
 
Neste contexto, os grupos dos sem bandeiras, mas não sem ideologia, - os neonazistas- foram ganhando força.  Na Ucrânia, como no Brasil, foi prometida formas não-violentas de protesto como uma “greve geral”. “Ela foi prometida em reiteradas oportunidades, mas nunca se concretizou, por conta da mesma incapacidade organizativa e ideológica dos “líderes” “pró-europeus”, escreveu Aleksandr Karpets. 

Nesse domingo (23 de fevereiro), as redes sociais reportavam um incidente em São Paulo, quando um  motorista avançou sobre um bloco de Carnaval na Vila Madalena, atropelando 20 pessoas. Não bastasse a barbárie do episódio, foliões enfurecidos teriam dado resposta à mesma altura, depredando o carro supostamente blindado do agressor e – pasmem – partindo para uma tentativa de estupro da namorada do atropelador. 

E este não foi o primeiro caso de “justiça com as próprias mãos”. Nos últimos dez dias, uma onda de pseudojusticeiros espancaram e amarraram suspeitos de crime (até ser julgado pela Justiça formal não posso chama-los de bandidos) em Mato Grosso, Santa Catarina, Piauí (amarrado a formigueiro), Natal, Rio de Janeiro e no Paraná.

Parece que a lógica olho por olho, dente por dente, começa a ficar legitimada na classe média brasileira. Que qualquer semelhança entre a situação entre Ucrânia e Brasil seja mera coincidência.

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segunda-feira, janeiro 27, 2014

Grammy premia autores de música antiostentação



Em tempos de rolezinho marcados pela exaltação aos bens de consumo da elite, compositores de canções que vão na contramão da música da ostentação - popularizada nos últimos anos pela indústria do entretenimento - levaram para casa um total de quatro Grammys, o maior prêmio da música norte-americana.

Além das estatuetas recém-adquiridas, o duo de rap Macklemore & Ryan Lewis e a neozelandesa Lorde têm em comum  canções que exaltam a simplicidade e a antiostentação.

ThriftShop (em português, "Brechó"), deu a Macklemore & Ryan Lewis o prêmio de  melhor perfomance de rap. O álbum "The Heist" - no qual está Thrift Shop - foi consagrado como o melhor do gênero.

Na letra, Thrift Shop faz pouco caso dos usuários de marcas famosas e do gasto despendido com roupas. "Cinquenta dólares por uma camiseta? / Chamo isso de ser enganado e abusado, droga/ Chamo isso de ser enganado por um negócio/ Essa camiseta é muito cara e ter uma igual a de outras seis outras pessoas nessa boate não dá / Olhe só, venha dar uma olhada através do meu telescópio. Está tentando pegar garotas por causa de uma marca?/ Cara, então você não pegará", canta a dupla.

Fenômeno semelhante é criticado pelo single "Royals" (Realeza, em português)da cantora neozelandesa Lorde. A música deu à jovem de 17 anos duas estatuetas: a de melhor canção do ano e a melhor apresentação pop solo.

 Lorde: da realeza ou da simplicidade?

Na canção, a jovem de 17 anos desconstrói o mundo de luxo popularizado nos últimos anos no entretenimento pop, como um desabafo de quem está cansada de ter como busca os bens de consumo.
"Mas todo mundo só fala de champanhe, carrões/ Diamantes em seus relógios/ Jatinhos, ilhas, tigres em coleiras de ouro/ Nós não ligamos /Não estamos envolvidos no seu caso amoroso", diz a letra da canção premiada, que segue com uma afirmação: "E nunca seremos realezas/ Isso não corre no nosso sangue. Esse tipo de luxo não é pra gente/ Nós desejamos outro tipo de agitação".

A popularidade de ambas canções apontaria um novo caminho para a música, pela busca do mundo mais simples, ou talvez a esta bandeira anticonsumista seja apenas mais uma apropriação da indústria do reconhecimento por esse mercado?
 


Música antiostentatção, ouro no peito. A nova cara do mainstream.
 
  
Lembremos que esta indústria é a mesma que premia álbuns como “Watch the Throne”, de JayZ e Kanye West - saturada por referências à riqueza em letras que exaltam marcas como a francesa Hermés (no “Rap de luxo") e Gucci. Recordemos ainda que a cantora Lorde - nascida Ella Maria Lani Yelich-O'Connor - assumiu o nome artístico supostamente por admirar a realeza que ela critica em Royals. E que as correntes grossas de ouro também estejam no peito de Macklemore.
Estratégia de marketing ou saturação da sociedade de consumo, as músicas premiadas pelo Grammy apontam que, talvez, os rolezinhos e os reis da balada não sejam mais populares no mainstream em um futuro próximo. Como cantou John Lennon em Imagine, “você pode dizer que eu sou um sonhador. Mas eu não sou o único”. Ao menos neste ano, o júri do Grammy parece concordar.

sexta-feira, janeiro 17, 2014

Eu, rolezeira e preconceituosa



Li vários artigos, favoráveis e contrários aos “rolezinhos” nos shoppings, assunto que como tantos outros nasce meio desgastado nas redes sociais. Nesta leva, há textos muito contundentes como o da antropóloga Rosana Pinheiro Machado, que não caiu de paraquedas no assunto porque é uma estudiosa do tema (funk, periferia) há muito tempo .

Aliás, essa é uma das mazelas da democracia nas redes sociais: a análise pela análise, a crítica superficial. De repente, todo mundo entende de tudo e tem opinião sobre os assuntos. E, nessa leva, muitas vezes os especialistas são rechaçados e classificados como marxistas ou esquerdistas. Foio que ocorreu com o texto da antropóloga, criticado pela Veja.*


Não sou especialista em consumo – embora tenha sido orientada no Mestrado por um estudioso do tema, Waldenyr Caldas, professor da ECA-USP e autor de livros como Temas da Cultura de Massa, Música, Futebol e Consumo”. Talvez gente como esses acadêmicos possam explicar melhor este fato social – que não é inédito e não nasceu politizado como crítica social, mas tem muito a dizer sobre a nossa sociedade do consumo.



Apropriar-se dos ícones do consumo não é coisa nova. Mas, de fato, a ascensão da classe C, o aumento do poder aquisitivo do brasileiro mais pobre nos últimos anos e as redes sociais tornaram este fenômeno mais visível. Ostentar bens de consumo sempre foi, na sociedade capitalista, uma forma de manter o status quo e de pertencer a um determinado grupo. E os adolescentes nos shoppings de São Paulo não são diferentes dos jovens da escola do meu filho, que levam seus smartphones de última geração para a sala de aula. Tampouco é novidade a crítica a apropriação dos bens das classes "superiores" pelas "inferiores".

Lembra-se da gritaria dos donos de IPhone quando o Instagram foi liberado para outras plataformas? Temia-se, em alguns estratos (os donos de IPhone), uma Orkutização – neologismo este que também surgiu associado à invasão dos jovens pobres ao Orkut. Enquanto deveríamos comemorar a inclusão digital, não?



Eu admito: é difícil manter-se distante do preconceito. Em várias ocasiões me deparei com minhas próprias atitudes preconceituosas. Eu já atravessei a rua ao ver um negro de boné vindo na minha direção à noite. Família, sociedade e a mída me ensinaram isso e a menter-me longe "do perigo". Porque é assim que o jovem negro é visto ainda: como uma ameça, um possível usurpador do seu direito de andar livremente entre os causasianos ou de lhe tirar a vida. É verdade que os presídios brasileiros têm mais negros a brancos. Embora a população negra no Brasil seja da ordem de quase 50%¨. Há uma razão histórica e social para isso, inclusive, que passa pela exclusão da comunidade negra.

Sim, eu já fui preconceituosa. Já chamei de piriguete mulher de roupa curta. Eu já usei o termo "favelada" em tom pejorativo a me referir a terceiros sobre uma garota negra e fã de funk, moradora da periferia de São Paulo, apenas por ciúmes do meu namorado. Envergonho-me dessas atitudes que muitos ainda trazem no cotidiano, embora estampem outra retórica.

Sei também que essas coisas são difíceis de serem rompidas e por isso mesmo devemos perseguir por esse rompimento. Meu avô, filho de mulata, rechaçava negros e fazia piada sobre eles. Ele era uma boa pessoa, mas reproduzia sem dó o discurso que a sociedade apregoava e do qual ele mesmo era vítima.

Assim, cresci achando que meu “cabelo era ruim” por ser cacheado (eu ainda o mantenho liso). Cresci achando que usuário de droga ("maconheiros da esquina do bairro", como dizia minha avó) deveriam ser presos e pertenciam a uma casta inferior.

Eu, que nasci pobre, desmerecia a pobreza e suas manifestações culturais e a violência que advém de toda a estrutura. E sei, por isso mesmo, que cabe a nós um esforço para romper esses padrões aprendidos na criação familiar.



Nunca fui expulsa de uma loja, mas muitas vezes – mesmo – fui maltratada por vendedores ou vendedoras. Não sou estereótipo de moça rica. Não tenho traços finos, não ostento marcas em bolsas (mas uso Melissa no pé, artigo que, segundo a Folha de São Paulo, é usado pelas “minas” dos rolezinhos). E, admtido, já comprei sem perguntar o preço (e sem precisar de fato do que comprava) apenas porque fiquei sem graça pela possibilidade de pensarem que talvez eu não pudesse adquirir o produto.

Quando adolescente gostava de ir ao shopping, mas tinha vergonha de parar defronte algumas lojas. Não era me dado o direito de ver algumas vitrines. Olhares desconfiados e perguntas feitas por vendedores até no lado de fora da loja me afugentavam deste universo. Isso porque nos meus rolês dos anos de 1990 eu usava o meu tênis New Balance. E lojas que me expulsavam eram de marcas das quais se adquiria um produto mesmo com um salário razoável (não era o Iguatemi da JK). Fui vítima desse preconceito de classe e por isso não consigo deixar de ver a reação como tal.
Hoje, com uma condição econômica bem melhor, sinto-me à vontade em transitar em qualquer shopping – embora não tenha (vontade e) dinheiro para adquirir certos bens de consumo.  Conta ao meu favor o fato de ser branca (amarelada). Sim, porque estamos diante de um caso de preconceito racial também. 

O meu preconceito já teve cor. E ela era negra. Disso me recordo com pesar, assim como não me esqueço daqueles olhares dirigidos a mim quando eu estava em frente às vitrines no passado. Talvez tenham sido esses olhares – mais do que qualquer literatura sobre o tema – os verdadeiros responsáveis pela minha empatia aos rolezeiros de hoje.

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* [Coisas das ciências humanas. Se estivéssemos diante da queda de um prédio, poucos discordariam dos laudos dos engenheiros sobre o tema. Ou, ao menos, dariam mais credibilidade ao assunto.]